sexta-feira, 23 de agosto de 2013

TRÊS POEMAS DE "SENTIDA MÚSICA"

"Sentida Música": o habitante da gaveta.
Abaixo transcrevo três poemas do livro intitulado "Sentida Música", inédito.
 
T E L Ê M A C O
 
Ulisses,
vou pela estrada do mar aberto
na proa do destino.
A claridade do sol em fluxo
que é tão belo quanto é vero,
descortinando a bruma
em que vives no imponderável:
— Sim, tu estás!
 
Esperança...
da Ítaca que te aguarda,
razão de ser, consciência do existir,
o retorno é tão longo quanto à luta,
mas, após o presságio, a certeza:
— Sim, tu estás!
 
Estás...
júbilo transborda a verdade,
a continuidade do teu sangue
te procura — mesmo no clamor
de luas transcorridas,
de saudades entrecortadas,
desta busca tecida no querer:
— Sim, tu voltarás!
 
SONETO VI
 
Refrações de azul. Jogo incandescente
na palheta de cores do horizonte,
quadro volúvel da ilusão errante
em percepção ao tempo evanescente...
 
A sugestão de sonho inconsequente
repara o tempo na manhã defronte,
leve fruição de sangue flamejante
em desvelada chama confluente,
 
fluxo de cinza e sol. Visão mais pura,
no entrecruzado fosco-brilho altera
e em cântico de luz é transfundida
 
entre a aurora. Translúcida figura,
num sopro a plenitude reverbera,
que é gerada e gratuita oferecida.
 
POLIFEMO
 
Gritos... treme a terra,
o estampido ecoa
no horizonte em torno,
— a vingança voa
 
no clamor vivido —
sobrepõe astuta
a perda dos sócios,
Ninguém o executa.
 
Providente vinho
de Zeus ilibado
depois do sinistro
ao Ciclope é dado,
 
e a lança afinada
em brasa fincou-se
no centro da vista
o golpe tão doce;
 
logo quando a Aurora
em dedos de rosa
surgiu matutina
alçando formosa,
 
— qual lume de sonho —
o passo se estuga,
a nave é precisa
na lúcida fuga;
 
põe-se ao mar, estrada
rumo a liberdade,
depois de anunciada
ao monstro a verdade:
 
“— Eu sou Odisseu,
de Laertes sou filho,
potente eversor,
para Ítaca eu trilho,
 
razão de que lembres
através do estado
que é tão vergonhoso
teu olho vazado”.
 
E ele atira o cume
de enorme montanha,
chove água salgada...
quase a nave apanha;
 
ao oceano onduloso
o pranto verteram,
misturou-se em susto,
quase ao Hades desceram.
 
Destino alcançado
para onde naveguem,
pois, quando os eternos
querem — o conseguem.