segunda-feira, 10 de agosto de 2015

CACAU INVENTADO: A CONSTRUÇÃO DE UMA OBRA LITERÁRIA


Wladimir Saldanha: Cacau Inventado.
Se a publicação de Lume Cardume Chama (Rio de Janeiro: 7Letras, 2014) e de Culpe o Vento (Rio de Janeiro: 7Letras, 2014) havia cristalizado Wladimir Saldanha como um dos talentos incontestes da Nova Poesia baiana, o surgimento de Cacau Inventado (Ilhéus: Mondrongo, 2015), coloca o autor na ponta de lança dos nossos poetas, no que tange ao material publicado nesse ano ou nos últimos anos. O novo volume se trata de uma verdadeira obra poética sobre o Ciclo do Cacau e tudo que o cerca em todos os sentidos.
Não se pode negar que o volume Cacau Inventado é um dos sustentáculos primordiais da Série Horizontes, coleção esta que, embora possa mostrar um ou outro ponto de questionamento, é hoje a principal expressão literária em conjunto da Bahia.
Se era difícil fazer pouco caso com a obra do poeta publicada até então, com o aparecimento de Cacau Inventado, fica ainda mais difícil ignorar a presença de Wladimir Saldanha. Fazer isso, através do silêncio e da orquestração suja, é sonegar uma trajetória honesta, pautada na absoluta qualidade literária e no juízo de quem preza e leva a sério o estudo da poesia. Resumindo: uma burrice. E o pior: é sustentar uma mentira, que fatalmente irá se desmanchar no futuro, porque esse livro permanecerá e prevalecerá com Opus Magnum.  Ou seja, perde-se a oportunidade de apreciar um dos nossos melhores poetas da atualidade.
      

SONETO DO CACAU SEM LÁGRIMA

No ar ressecado do que sou de morto.
Cyro de Mattos. Sonetos da vassoura-de-bruxa.

Não te aconselho chorar, quando passes
e mires o deserto de nutridas safras (...)
Florisvado Mattos. Canto clamor cacau.


Essa dor é sem lágrima, sem mar,
embora o mar bordeje aquelas beiras.
É uma dor sem chuva, nem molhar
o imaginário estio: pedra e poeira.

Ilhas do étimo, ilhéus de dicionários,
é tudo inverossímil: corredeiras
não mais prosperam, e dos Milionários
já nem é bem a Praia, mas a areia.

Há todo um mar ocluso na paisagem
do cacau, amêndoa que se purga
sem maresia, acidulando a aragem.

Há grossos rios que vão morrer na curva.
Se um porto seca, sem matalotagem,
não chore a safra: não invente chuva.
(SALDANHA, 2015, p.27).

SALDANHA, Wladimir. Cacau Inventado. Ilhéus: Mondrongo, p.34.

sábado, 8 de agosto de 2015

WLADIMIR SALDANHA REVISITANDO VERLAINE

Wladimir Saldanha revisitando o “verbo musical” de Verlaine (1844-1896) com rara perfeição. Pertence ao livro Culpe o Vento (7Letras, 2014), volume esse que um Manuel Bandeira, se vivo fosse, diria algo como “esse jovem poeta é muito bom tanto na música dos outros quanto na dele própria.”

ARIETA ESQUECIDA, PARA USO PRÓPRIO
[Tradução da Ariette Oubliée III, de Verlaine]

Há choro em meu coração
Como há chuva na cidade;
Mas que angústia que me invade
E molha meu coração?

Doce tilintar da chuva
Pelos tetos e calçadas!
Para um peito que se enfada,
Que canções há nesta chuva!

Há um choro sem razão
Em meu peito mareado.
Mas, quê! Não há traição?...
Este luto é sem finado.

É esta a pior angústia
Por não se saber motivo.
Sem amigo ou inimigo,
Meu coração se angustia.

SALDANHA, Wladimir. Culpe o Vento. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014.