domingo, 3 de março de 2013

A ANTOLOGIA METAPOÉTICA DE ANDERSON BRAGA HORTA


HORTA, Anderson Braga. Signo (Antologia
Metapoética). Brasília: Thesaurus, 2010.
 
 


Um dos representativos autores da Geração 60 na literatura brasileira, pela vertente de poesia, o poeta mineiro-brasiliense Anderson Braga Horta (1934), ofereceu mais um importante volume de sua significativa obra. O livro, intitulado Signo: antologia metapoética (Brasília, Thesaurus, 2010), reúne extensivamente vários poemas que contenham como objeto poético a própria poesia. Na compilação dos textos, foram selecionadas peças cuja referencia metapoética fosse de forma passiva (poesia como leitmotiv) ou ativa (mais entrelaçada ao próprio fazer poético), como um receituário ou filosofante da poesia em si. 

O metapoema é uma das grandes ocupações do fazer poético na modernidade: possui como objeto de percepção versar sobre o objeto poético, mesmo variando a abordagem sob uma perspectiva parcial ou total. Difícil é não encontrar algum texto ou um poema, seja na literatura nacional seja na literatura estrangeira, algo que não se refira ao fenômeno da metapoesia. Verifica-se, porém, que diversas vezes tal procedimento transpareceu-se em uma espécie de falta de assunto crônico, mesmo constituído num recurso por demais incensado por teóricos e ensaístas, resultando inúmeras vezes em mero esteticismo. Contudo, é tomado como assunto incontornável por parte de poetas e intelectuais no decorrer de todo século XX. 

Felizmente, isso pouco ocorre com a poesia de Anderson Braga Horta: dentre uma produção poética profícua e na maior parte das vezes bem realizada, Anderson se insere através da reflexão aguda, sobretudo pela verdadeira investigação sobre objeto poético. E sem nenhum favor, Anderson, autor de Signo, participa altivamente nesse grande diálogo de todos os tempos, da função (ou não) do poeta e da poética na produção artística. Nos poemas inseridos em Signo, desenvolve-se, entre outros, a reflexão e a emoção nominalizada através dos recursos e alcance da poesia. Cumpre destacar que a inquietação metapoética de Anderson Braga Horta se segue desde a iniciação literária deste, em 1950. O mesmo sentimento permaneceu ao decorrer de sua vida literária, fator latente durante toda a atividade produtiva.

Os poemas em Signo prosseguem dispostos de forma cronológica, em peças produzidas entre os 16 até os 74 anos de idade, ou seja, quase sessenta anos de longeva produção literária. O autor divide se divide em quatro partes: de fato há quatro ciclos de produção: a primeira, que vai de 1950-55, com a produção inicial mais ligada a um talhe tradicional e num tom passadista, mas sem prejuízo nas composições, sendo que nesse ciclo incluem-se os sonetos com as chaves de Guilherme de Almeida — compostos em 1960 — e outras peças esparsas ao decorrer da trajetória literária. O segundo ciclo, 1956-1981, (inclui-se 1987, isolado), contém os poemas da maturidade, e são em grande parte dos casos de notório valor literário, com poemas inseridos nos volumes Altiplano & Outros poemas (1971), Marvário, (1976) Incomunicação (1977), Cronóscópio (1983) e O Pássaro no Aquário (1990). O terceiro ciclo é o que compreende a partir de 1993-presente, numa produção notadamente mais esparsa e circunstancial, porém, sendo recorrentemente superior ao mero valor documental. O quarto ciclo são as notas e fragmentos, notadamente em prosa, que são fundamentais para a compreensão e sentido do livro, merecedores sem dúvida de um estudo em separado.

No primeiro ciclo é apresentado um Anderson Braga Horta muito jovem, não pelo bisonho da produção (que ele mesmo se afirma), mas do aparecimento, desde muito cedo, de uma linguagem poética própria, plástica e musical, mesmo que apercebesse um certo anacronismo e uma gratuidade de expressão na fatura de alguns poemas. O autor desde o início soube manejar prioritariamente o verso metrificado, assim como o assenhoramento dos versos decassílabos e alexandrinos franceses. Nesse primeiro ciclo predominam os sonetos e poemas, em peças já significativas, tais como “Desilusão”, “Prece”, “Anteprimavera”, “Ideal” e “Porta”. Outras dois poemas se destacam: os sonetos “Cigarra” e “O poeta e a vida”. O primeiro, inserido em Soneto Antigo (2009) me fez lembrar o lirismo crepuscular do hoje esquecido Olegário Mariano (1889-1958), poeta neoparnasiano, conhecido como o “poeta das cigarras”. Já o soneto seguinte, a referência exterior à poesia figura-se bem exposta: