sexta-feira, 12 de outubro de 2012

DOIS POEMAS DE MIGUEL D´ORS

 
 
A MARIPOSA
 
A Mariposa é filha
de uma flor e um aplauso.
 
 
TÍO ATILANO
 
Em noites como esta recordo do tio Atilano
em sua mesa do velho “Savoy” de Pontevedra:
eram mais de cinco horas da tarde ao verão;
a vida ia e vinha pela praça de pedra
 
e ele a via passar, tão perto —  mas há tanto —
desde a ilha de mármore —  com a taça de café
de pura linhagem que extenuava em sua mão
e com as páginas digestivas do ABC ­­­— .
 
Em noites feito esta, com o desejo de ser
também incorporado a algum povo ricaço,
para além do Levante —  Elche, Villena, Alcoy… —,
 
despertar-se as dez horas, barbear-se, comer,
ir uma vez por ano à firma para o despacho
e ver passar a vida sentado no “Savoy”.
 
SOBRE MIGUEL D’ORS
Miguel d'Ors é professor e poeta espanhol, nascido em Santiago de Compostela, Galiza, em 1946. Su poesía es elogiada por la conjunción de un perfecto dominio técnico de las formas poéticas con la renovación de una temática (biográfica, religiosa, política, elegíaca) en principio calificada de 'tradicional'. Sua poesia é elogiada pela perfeita combinação do domínio técnico através da reexperimentação de várias formas poéticas com a renovação de um sujeito (elegíaco biográfico, religioso, político), normalmente descrito — pela crítica — como "tradicional". Su obra ha influido en numerosos poetas jóvenes. Sua obra influencia, hoje, vários poetas na Espanha e na América. Se le ha incluido en diversas antologías. Ele está incluído em várias antologias. Ha sido traducido al inglés, francés, portugués, alemán, ruso, armenio y polaco. Sua obra poética foi traduzida para o Inglês, Francês, Português, Alemão, Russo, Armênio e em Polonês. Obtuvo el doctorado en Filosofía y Letras en la Universidad de Navarra, donde trabajó como profesor entre 1969 y 1979.Professor desde 1969, dez anos depoisDesde 1979 fue profesor de Literatura Española en la Universidad de Granada, donde se jubiló en 2009. passou a lecionar literatura espanhola na Universidade de Granada, onde se aposentou em 2009. Ha publicado trabajos de investigación en Literatura Española, especialmente sobre Manuel Machado y poesía española actual. Ele tem publicado trabalhos de pesquisa em literatura espanhola, especialmente a poesia de Manuel Machado e lírica espanhola atual.
 
Os poemas acima foram traduzidos da seguinte referencia:
 
D’ORS, Miguel. El Mistério de la Felicidad. Sevilha: Renascimiento, 2009.
 

sábado, 6 de outubro de 2012

UM SONETO DE BRUNO TOLENTINO


 
I. 170
Foram dias estranhos, luz na periferia
da luz, como se agora, e lento, o corredor
do instante se esticasse e deixasse supor,
senão um desenlace, uma ante-sala fria
   como a hora alongada que precede a agonia
do dia e desemboca aos poucos num sabor
metálico, de papel de estanho, uma anticor
de ocaso adivinhado, que ainda mal se anuncia.
   Esses dias de luz mais fria, como os lembro,
tinham de uma claridade oblíqüa, fotográfica,
entre a nudez metálica e a geometria errática:
  Alexandria, abandonada membro a membro
a bacantes tardias, sensualmente sádica,
cortava-nos ao vivo no estanho de Setembro.
 
(TOLENTINO, Bruno. A Imitação do amanhecer. Rio de Janeiro: Globo, 2006).

 

O soneto traz no seu contexto uma sugestão de mudança refletida no sujeito poético, que o instigava e angustiava os sentidos, além da conotação do tempo decorrido, do cromatismo das descrições metálicas, amargas e adstringentes. Assim, dá-se o processo de focalização do objeto em fotomemória evocativa do real, no substrato imaginado. Essa memória contemplativa alimenta o tônus principal desse poema-livro de fôlego que é A Imitação do Amanhecer. Esse soneto cabe no exemplo que se enquadra em todo o volume: um fluxo interior de uma atmosfera dramática, em tentativa de preservação de um passado em consonância com a mudança problematizadora do presente.

No soneto analisado, estranhamentos tensos, sugeridos por “hora alongada” seguida de “desembocar aos poucos”, predominam imagens que sugerem uma mudança gradual e renhida, reiterado também na sensação dos sentidos entrecruzados, que é apresentado, por exemplo, na sinestesia “num sabor metálico”. O sujeito poético busca a utilização de todos os sentidos possíveis para atestar essa mudança, mesmo sendo de belezas estranhas e impressionistas. As imagens de intenso brilho permeiam todo o soneto, sugerindo uma aura de imobilizar o tempo no âmago do eu-poético. Os versos são alexandrinos, a um modo muito particular do poeta, uma vez que a presença dos versos metrificados é uma constante em Tolentino em toda a sua obra. 

Posso afirmar que Bruno Tolentino, na reexperimentação dos dodecassílabos em língua portuguesa, rearranjou a estrutura interior desse verso com o recurso da polirritmização. O verso alexandrino clássico, da forma como o conhecemos, foi importado da França e adaptado a nossa língua. No Brasil, o primeiro autor a usar o verso alexandrino foi Machado de Assis, conferindo-lhe — com o decorrer do apogeu de reconhecimento crítico a sua obra — o status necessário para a afirmação do metro poético. No entanto, as versificações dodecassilábicas obtiveram a primeira significativa mudança com Emiliano Perneta, Alphonsus de Guimaraens e Francisca Júlia em finais do Século XIX. Esses poetas deslocaram o acento rítmico binuclear dos hemistíquios para a 4ª e 8ª sílabas. A polirritmização, ou seja, o uso concomitante do verso dodecassílabo quaternário (também chamado de moderno), com o alexandrino francês e o alexandrino espanhol deram uma fluência extraordinária aos versos do livro A imitação do amanhecer, que juntamente com as sequencias de enjambements, atingiu-se uma comunicabilidade elástica de rara precisão. Uma vez fruído, são versos que elevam o leitor a outro estado de percepção.

A exemplificação dessa técnica desenvolvida por Bruno Tolentino (que não se confunde com a técnica de fazer versos), na observação e leitura de diversos livros da poesia brasileira, é conseguida através de muita meditação e convívio com as várias soluções verbais e versificatórias possíveis. Além disso, são necessários muitos anos de tentativa, convivência com os mestres de todos os tempos literários, amadurecimento e conhecimento interior. Mesmo assim, julgo haver poucos exemplos. Tais como em: Jorge de Lima (da Túnica Inconsútil, adiante), Carlos Drummond da terceira fase (Claro enigma, Fazendeiro do Ar, A vida passada a Limpo e Lição de Coisas), de alguns poemas dos poucos conhecidos Waldemar Lopes e Abgar Renault e o terceiro Cassiano Ricardo (poesia do autor da década de 40).

Segue como exemplo também parte da obra de Cecília Meireles, principalmente a da maturidade e Tasso da Silveira, (no livro intitulado Puro Canto). Dos representantes da geração 60, podemos lembrar dos poucos sonetos escritos por Orides Fontela, das Retrancas de Alberto da Cunha Melo e quase a totalidade de poemas da obra de Alberto da Costa e Silva. Outros exemplos? Por questão de espaço e num próximo momento poderemos mapear e melhor definir o fenômeno. É uma poesia de procura de teor intemporal e se trata de uma espécie poética em que fulge a essência da percepção da língua, de fundo filosófico e refinamento do verso. Desse modo, o poema pode atingir um nível transcendental que não se esgota e se afirma com o tempo.

A obra A Imitação do Amanhecer, de Bruno Tolentino, contém 539 sonetos, escritos ao longo de 25 anos, precisamente entre 1979 e 2004. O livro composto de três movimentos talvez seja o mais extenso livro single de sonetos da poesia brasileira recente, ultrapassando obras como os Sonetos Completos de Gilberto Mendonça Teles, com 217 peças e Todos os Sonetos de Alphonsus de Guimaraens Filho, com 296 peças. Outros poetas até ultrapassam o valor numeral de A Imitação do Amanhecer, tendo como exemplo a obra Nau de Urano de Nauro Machado, com 806 peças. Porém, neste caso, trata-se de uma recolha de todos os sonetos publicados em livros entre 1958 e 2002. O mesmo serve para os 1.194 sonetos de Luís Delfino (1834-1910), recolhidos em volume único postumamente. Somando-se todas as peças dessa modalidade lírica, Bruno Tolentino, em todos os seus livros, ultrapassa a conta de mil composições.

Nos dias atuais e no decorrer dos anos, a poesia de Bruno Tolentino continuará uma seara de compreensão custosa ­­­— e fascinante — pelas possibilidades de leitura e pela exigência de um leitor experiente e devotado naquilo que o poeta deixou de legado para a nossa posteridade. Em outro momento, pretendo também ocupar-me em elementos encontráveis no volume As Horas de Katharina (obra na qual creio que é a mais bem harmoniosa e convincente), A Balada do Cárcere e Anulação & Outros Reparos (livro de estreia do poeta que recebeu o prêmio Revelação do autor 1960), do qual o júri foi composto por Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo e Ledo Ivo, e teve o prefácio assinado pelo jovem José Guilherme Merquior. 

No soneto apresentado — estrutura que é ao mesmo tempo autônoma e perfaz um tecido de significado único — pela força dos enjambements sugere um formato de espiral sem ponto de início e fim em todo o livro. O sujeito poético trilha um desvendamento por uma cidade universal e mítica, nos planos do real e do imaginado em Alexandria. A representação condigna de desenvolver suas tensões existenciais e filosóficas no desprendimento do passado e na observação e aceitação dos substratos mutacionais da vida. Algo que é irremediavelmente inerente a nossa natureza humana.