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Mormaço
(RJ: Contracapa, 2013) |
A morte, entendida como dissolução inarredável da natureza humana, é a
temática principal dos poemas de Mormaço
(Rio de Janeiro: Contracapa, 2013), de Lêdo Ivo (1924-2012), poeta, escritor e
ensaísta que pertenceu à Academia Brasileira de Letras. A visão do sujeito
poético sobre a “indesejada das gentes”, conforme famosa expressão de Manuel
Bandeira, é desalentadora e irredutível. O poeta busca abordar a finitude da
existência humana em diferentes inflexões, desde as reminiscências poéticas que
remetem à terra natal (Alagoas), até as passagens pela Europa e Estados Unidos,
atravessando toda a trajetória pessoal de longos 70 anos de ininterrupta e
intensa carreira literária.
Seria este livro a última estação poética de Lêdo Ivo? Provavelmente não,
uma vez que após a edição de Mormaço
já vieram a lume mais dois títulos: a reedição aumentada de O Aluno Relapso — acompanhada agora de uma
segunda parte, intitulada Afastem-se das
Hélices, que contém os últimos escritos do poeta — e o anunciado Aurora, pequeno livro de 13 poemas
publicado já na Espanha. Mormaço,
também editado inicialmente em solo espanhol (com o título de Calima, pela Vaso Roto Ediciones), ganhou versão em português pouco depois da
morte do autor, em 23 de dezembro de 2012, na cidade de Sevilha. A publicação
de um livro fora de seu país natal sugere uma enormidade de questionamentos,
que vão desde a inexpressiva presença do poeta alagoano no cenário acadêmico até
a posição do autor no cenário editorial e literário brasileiro, pautada pela agudeza
pessoal e crítica, às vezes reiterativa e mordaz em relação ao cânone
modernista brasileiro e seus influxos, isto é, à literatura que se sente
tributária da Semana de 1922.
No senso comum (espécie de consenso de um sentido), mormaço é um estado
climático que provoca inquietude corporal, pelo abafamento e calor causticante,
a sugerir que pouco depois virá uma inevitável chuva, trovejante e dissolvente.
Desta forma, Mormaço para Lêdo Ivo pode
ser, metaforicamente, a inquietação final diante de um desaparecimento
inevitável. O feliz título para o volume não significa a felicidade de uma
transição para outra existência, mas a constatação pessoal, pessimista e
negativa, ainda que conformada e resignada:
A BELA AURORA
Sempre estive onde está o
amanhecer.
A noite se converte em
bela aurora
e nos meus olhos o sol
deposita
um cortejo de sombra e de
silencio
e um calor que jamais
aquece os mortos.
E aqui estou, ó Morte, e
trago a vida
como quem traz nas mãos a
despedida
após tantos adeuses
provisórios,
para que também morras
junto a mim,
relâmpago na aurora
escancarada
a um pensamento que
jamais se pensa
e a um nada que é tudo,
sendo nada.
(IVO, 2013, p.24).
O poema acima é um das várias peças poéticas com essa temática, em que o
clima de uma suposta negação à transcendência, ainda que haja uma
verticalização, faz-se quase sempre presente. A priori, na primeira
leitura do poeta, a sugestão sobre o final da existência humana perfaz-se na
imagem do pó e a nulidade post-vitae,
como se depois da existência “nada tivesse acontecido ou existido”. Entretanto,
essa leitura pode se mostrar incompleta e até equivocada, devido à trajetória
múltipla e inquietadora de Lêdo Ivo desde a sua estreia com As Imaginações, aos 20 anos, em 1944. Os
anos se passaram e dezenas de coletâneas vieram a lume, de modo que a visão religioso-mística
do poeta caminhou num grau de tangenciamento do assunto, assim como foi, ao
mesmo tempo, problematizadora da referenciação judaico-cristã. Esse traço jamais
desapareceu de sua obra poética. Para isso, é importante ressaltar o que o
poeta e estudioso Wladimir Saldanha expressa sobre o assunto:
“A imagem está, por assim
dizer, em negativo: Lêdo Ivo não tem um cristianismo afirmativo, como fora o
caso de seu conterrâneo, o também alagoano Jorge de Lima. Suas imagens cristãs
são problemáticas desde esse começo, muito embora ainda esteja longe, aqui, de
uma atitude blasfema”.
Entretanto, o problema da transcendência persiste: em uma de suas últimas
entrevistas à televisão, ficou mais que evidenciado o seguinte fator — Lêdo Ivo,
apesar de tratar sobre o assunto em toda a sua vida, demonstrava que tinha receio
da morte como finitude completa da existência. Segundo o poeta, para o
exercício de viver, se “comprometeria a fazer qualquer negócio”, além da
afirmação de que a “posteridade de sua obra não representaria nada”, uma vez
que considerava a consciência do viver como algo imprescindível inclusive para
a verificação e noção da própria obra literária realizada. Portanto, não é
possível estabelecer uma verdade sobre o assunto, dado o caráter ambíguo das
declarações acima citadas. Enfim, um problema que somente poderia ser
investigado em outro estudo, ocupado somente desse domínio.
Em Mormaço, há uma tensão de
linguagem subjacente à utilização do tema metafísico, além da simetria entre
forma e conteúdo, princípio de construção que o poeta seguiu à risca em toda a
sua trajetória literária. A
contemplação amorosa do mundo e a angústia metafísica da linguagem são motivos
poéticos, que, aliás, se fazem bastante presentes nos cinco
primeiros livros do poeta: a fatura do poema acima evoca um pouco algumas peças
de volumes anteriores, entre os quais, Linguagem
(1949), Cântico (1951) e, sobretudo, Magias (1960). Neste livro publicado há mais de cinquenta
anos, já por meio dos primeiros poemas da obra, verificamos que Lêdo Ivo trata
o assunto da passagem do tempo e da presença da morte mais a sério que na poesia anterior, constatando-se,
com isso, a formulação de um primeiro balanço sobre a própria existência. É o
que também ocorre com o livro Mormaço,
agora buscando expressar poeticamente o seu desconcerto diante de uma iminente
finitude física.
Mas nem tudo no livro é tomado por essa gravidade pungente, fato tão
íntimo a nossa natureza trágica: o ritmo formal do poeta impressiona. Em poemas
escritos com a idade acima dos oitenta anos, Lêdo Ivo conservava o vigor
estético e virtuosístico de outrora. O poeta ainda mantinha posse de todos os
recursos estilísticos e formais na conjunção forma-conteúdo, se bem que
evitasse o ritmo "ciclópico" e transbordante que marcara o início de
sua obra poética. Mormaço é um notável
livro, no qual o poeta se despede em grande altura, incorporando também 42 notáveis
pinturas de Steven Alexander. Sem dúvida, o volume se faz suficiente para dar
uma bela bordoada (ao menos intelectiva) na cabeça de muitos literatos da
contemporaneidade, porquanto percebamos uma frequência reduzida de estudos sobre
o poeta na universidade, feitas a exceções a alguns estudiosos exemplares que não
põem em dúvida a capacidade e a grandiosidade do poeta alagoano, presença que
se impõe cada vez mais.
Segue abaixo um soneto (forma da qual Lêdo Ivo sempre fez uso) com a
mestria habitual. Mestre, pois readmitindo o seu uso desde o primeiro momento, editou
um livro exclusivamente formado com tal molde poético (Acontecimento do Soneto, de 1948) e o seguiu cultivando durante
toda a sua lírica. Mestre porque, nas habituais sequências de enjambements, logrou atingir uma
comunicabilidade elástica de rara precisão, ajudando a dar novo sopro ao soneto
na poesia brasileira contemporânea:
SONETO DO ARRASTÃO
Tudo que desejei fundei
no vento
que nada guarda e a tudo
desafia
e fratura a paisagem, na
porfia
de abolir o alicerce e o
fundamento.
Em vez de confiar meu
desalento
ao vento confiei minha
alegria,
mudada e tarde clara na
sombria
sobeja noite de raio e
tormento.
Apartado de mim, refém do
vento,
e em seu sopro mudado, e
no arrastão
que ousa cegar até a luz
do dia,
no torvelinho desse
apartamento
findei por ser o próprio
turbilhão
e, sendo vento, fui minha
alegria.
(IVO, 2013, p.27).
O poema seguinte aparentemente trata apenas de uma temática que contém
como objeto poético a própria poesia. O metapoema,
como uma das grandes ocupações do fazer poético na modernidade, versa sobre o
próprio objeto literário. Entretanto, a leitura desse poema não se reduz a tal
domínio. Nas duas últimas estrofes, está uma declaração de
abertura de sentido bastante significativa, que presentifica também uma espécie
de profissão de fé do autor no livro: o tema da morte se reinsere novamente,
inclusive num texto sobre reflexão poética, um exemplo dentre vários, o que
talvez tenha levado Ivan Junqueira a chamá-lo, no estudo introdutório da Poesia Completa (2004, p. 27), de um
“lírico elegíaco”:
O QUE DIZ UM POEMA
Um poema sempre diz nada
e também sempre diz tudo
como a voz de um
falastrão
dentro da boca de um
mudo.
Um poema não tem sentido
por ser tudo e por ser
nada
como o clarão pressentido
na bruma da madrugada.
Um poema diz o que cala
ou fica nas entrelinhas
uma espada na bainha
escondida numa mala.
Um poema é uma máscara
da face sempre escondida
que projeta nos espelhos
a prova de seu disfarce.
Um poema fala da morte
e do inferno desta vida.
Sempre haverá de sangrar
a nossa eterna ferida.
Sobre a imensidão marinha
entre peixes e corais
o poema é como um navio
que jamais regressa ao
cais.
(IVO, 2013, p. 134).
A exemplificação desse domínio técnico desenvolvido por Lêdo Ivo (que não
se confunde com a técnica de fazer versos) na observação e leitura de diversos
livros da poesia brasileira, é conseguida através de muita meditação e convívio
com as várias soluções verbais e versificatórias possíveis. Além disso, são
necessários muitos anos de tentativa, convivência com os mestres de todos os
tempos literários, amadurecimento e conhecimento interior. Todavia, algo mais além
do que a perícia formal se fazia necessário para sustentar um livro como esse,
com muitos altos momentos e poucos reveses. Há que se destacar as palavras de Wladimir
Saldanha (2013) no primeiro ensaio sobre o livro, ainda na versão ibérica da
obra, anterior à edição brasileira:
“Interessante, nesse
ponto, ressaltar a coerência criativa de Mormaço, pois o livro não é um mero
amontoado de poemas escritos profusamente, como um adeus espalhafatoso, de quem
procura assegurar-se do aceno. O próprio signo “mormaço”, quando não está
diretamente relacionado ao ambiente dos poemas, à sugestão de morte que domina
o livro, ocorre discretamente [...].” (SALDANHA, 2013, p. 5).
Eis a grande lição de Mormaço: Lêdo Ivo almeja “o entender
contemplando” que remete não ao sentido de ordem mais cosmológica, mas ao
imanente e real-concreto existencial da vida. O autor não faz mera especulação,
mas oferece a si mesmo e aos leitores um questionamento da natureza do ser, da
precariedade da existência, e da relutante despedida temporal, estando neste
último subtema o cerne da questão. Lêdo Ivo pranteia o ser fenomênico – talvez
porque tenha sido, afinal, um homem realizado, pleno, tendo conhecido alguma
forma de felicidade na limitação que é de todos nós. Um exemplo comovente é
visto na peça intitulada “Novo Soneto de Paris”, espécie de poema temporão que
dialoga com a obra de cinquenta e oito anos atrás, Um brasileiro em Paris, de 1955, em que o “Novo” se revela, em
verdade, como o “último momento” de uma vida que sempre se reinventava, e que de
alguma maneira se transmutou para outra e definitiva forma: o coração e o espírito
de seus leitores e admiradores:
[...]
a ti dedico os passos
derradeiros
que me afastam da vida
quando passo
sob as árvores da longa
alameda.
Entre a noite indolente e
os sóis primeiros
cai a folha do amor, e
cai no espaço
do dia breve. E a morte é
muda e lêda.
(IVO,
2013, p. 217).
REFERENCIAS
IVO,
Lêdo. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.
IVO,
Lêdo. Mormaço. Rio de Janeiro: Contracapa, 2013.
JUNQUEIRA,
Ivan. Quem tem medo de Lêdo Ivo? In: IVO, Lêdo. Poesia Completa. Rio
de Janeiro: Topbooks, 2004.
SALDANHA,
Wladimir. A morte solar de Lêdo Ivo. Disponível em: <>.
Acesso em 27 de Setembro de 2013.