segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A CINZA DAS HORAS, PRIMEIRO LIVRO DE MANUEL BANDEIRA: O CENTENÁRIO DE SUA 1ª EDIÇÃO (1917-2017)



Neste ano de 2017 marca o centenário de uma das obras que abriram caminho para a moderna poesia brasileira: “A Cinza das Horas” (1917), de Manuel Bandeira (1886-1968). O livro, então com 49 poemas, numa edição de apenas duzentos exemplares e custeada pelo pai, figurou-se não apenas o volume de estreia do autor. Ainda que naquele ano houveram outros lançamentos de relevo, tais como “Carrilhões”, de Murillo Araújo (1894-1980), “Nós”, de Guilherme de Almeida (1890-1969), “Uma Gota de Sangue em Cada Poema”, de Mário de Andrade (1893-1945) e “Verão”, de Martins Fontes (1884-1937), o livro de Bandeira sem dúvida foi, pelos rumos que a lírica nacional tomou após a publicação, o mais significativo daquele ano.

Como afirmou Wilson Martins certa vez, Bandeira foi, do ponto de vista da inspiração e da técnica, um simbolista tardio e um precursor do Modernismo, como pode ser fartamente visto em A Cinza das Horas. Vindo do Parnasianismo e do Simbolismo, ou do interregno que marcou essa transição, Bandeira trouxe consigo esse sentido de artesanato poético, que o acompanhou até o fim. Neste primeiro livro predominam ainda os versos metrificados e rimados, contudo já se verifica um avanço significativo através de poemas que transitam a polirritmia e ultrapassam a fronteira dos versos livres, que viriam mais tarde.
 
 
É curioso lembrar ainda que Manuel Bandeira traz a regularidade métrica como um dom praticamente inato, custando-lhe os poemas em verso livre, polimétricos ou metrificados o mesmo esforço. Se a poesia dele, como concepção, sofreu a influência decisiva do Modernismo, foi a partir da poesia divulgada através de A Cinza das Horas tecnicamente que ele conservou o virtuosismo parnaso-simbolista através do qual não findou em nenhum momento. 

Em Bandeira, o artesanato é, por assim dizer, uma habilidade manual ou física, que, pelo longo exercício dos decênios posteriores, na afirmação da poética, brota naturalmente sem força e com fluidez. O vate pernambucano, tal como pode ser visto nos volumes posteriores, já mostra estar de posse de todas as suas virtudes e qualidades como artista do verso desde o primeiro livro. Por isso, nestes cem anos da estreia, Manuel Bandeira ensinou a todas as gerações posteriores que a expressão poética é o sentido último da poesia no poema, que está acima de qualquer esteticismo ou sentimentalismo equivocado. Ou seja, ensinou a todos nós como a poesia deve ser.

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